sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A FOME NÃO PODE SER USADA COMO CABRESTO POLÍTICO

Por Ricardo Tavares
Jornalista investigativo e especialista em desigualdade social

Existe uma verdade dura que precisa ser dita sem rodeios: em muitas partes do Brasil, a miséria ainda é tratada como ferramenta de poder. Não como problema a ser resolvido, mas como situação conveniente para quem precisa de votos fáceis.

A cada eleição, o mesmo filme se repete. Caminhões com cestas básicas aparecem. Promessas emergenciais surgem. Favores individuais são oferecidos como se fossem política pública. Para quem está com fome, qualquer ajuda é urgente e necessária. Mas para alguns políticos, essa urgência virou estratégia eleitoral.

O que deveria ser política de Estado vira moeda de troca. O que deveria ser direito vira favor. E quando direito vira favor, nasce a dependência.

Não é normal que um povo precise esperar eleição para receber ajuda. Não é normal que comunidades inteiras sobrevivam de ações pontuais enquanto faltam projetos sérios de desenvolvimento. Não é normal que, década após década, regiões inteiras continuem presas aos mesmos problemas sociais, enquanto grupos políticos seguem se revezando no poder.

A fome não nasce do nada. Ela cresce onde falta investimento em educação de qualidade, geração de emprego, qualificação profissional, infraestrutura e oportunidades reais. Quando isso não acontece, sobra espaço para a política do prato cheio hoje e do futuro vazio amanhã.

Assistência social é necessária. Programas sociais salvam vidas. Mas usar a necessidade das pessoas para construir poder político é uma das formas mais cruéis de manipulação social. Porque prende o cidadão no presente da sobrevivência e rouba dele o direito de sonhar com o futuro.

Quando alimento vira ferramenta política, cria-se um ciclo perverso: o povo recebe o mínimo para sobreviver, mas nunca o suficiente para se libertar. E enquanto isso, quem ocupa cargos de poder mantém privilégios, estabilidade financeira e distância da realidade de quem luta todos os dias para colocar comida na mesa.

A verdade é incômoda, mas precisa ser enfrentada: quando a pobreza não é combatida com políticas estruturais, ela deixa de ser apenas um problema social e passa a ser também um problema político. Porque a miséria facilita o controle. A necessidade enfraquece a capacidade de escolha. E o voto deixa de ser livre quando é movido pelo medo da fome.

Nenhuma sociedade cresce sustentando gerações apenas com ajuda emergencial. Combater pobreza exige planejamento, investimento contínuo e compromisso real com desenvolvimento. Exige educação forte, economia local ativa, emprego digno e mobilidade social.

Dignidade não pode aparecer só em época de eleição.
Comida não pode ter calendário político.
Esperança não pode depender de favor.
Um povo forte não é aquele que recebe cesta básica.
É aquele que tem renda para escolher o que colocar na própria mesa.
É aquele que vota com consciência, não com desespero.
É aquele que cobra projetos, não promessas.

A verdadeira mudança começa quando a população entende que ajuda emergencial resolve o hoje, mas política pública séria constrói o amanhã. E nenhum futuro é possível enquanto a fome for usada como ferramenta de poder.

Porque dignidade não é favor.
Dignidade é direito.

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