FONTE: PROFESSOR E HISTORIADOR EDMILSON SANCHES
----- Registros sobre o desembargador Arthur Almada Lima Filho, fundador do IHGC, nascido em Caxias em 17 de outubro de 1929 e falecido em São Luís em 27 de outubro de 2021
Fotos: Arthur Almada Lima Filho e seus livros: "Sem a História de Caxias não há História do Brasil".
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) realizou na tarde de 12 de março de 2025, em Caxias (MA), a cerimônia de entrega da obra de restauro e adaptação de uso do Complexo Ferroviário. A solenidade teve início às 15h e encerrou às 17h. Houve visita técnica às instalações, discursos, apresentações artísticas e descerramento da placa inaugural. Sócios do Instituto Histórico, da Academia caxiense de Letras, da Academia Sertaneja de Letras, Educação e Artes do Maranhão, autoridades do Estado e do Município e convidados compareceram ao evento.
Constituído de três grandes edificações, que antes eram a Estação Ferroviária e os dois galpões (de armazenamento e de manutenção de locomotivas e vagões), as construções foram inteiramente restauradas e adaptadas para novos usos. Entre estes usos, a sede do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias, que já vinha ocupando e dinamizando o local e cujo fundador e presidente, desembargador Arthur Almada Lima Filho, deu início ao uso regular do prédio principal como sede do IHGC. No início, com a ação do desembargador, foram afastados da área os dependentes químicos que antes “tomavam de conta” das instalações, onde praticavam o vício e tornavam anti-higiênico a histórica Estação.
A Estrada de Ferro São Luís-Teresina, que alavancou a economia de Caxias no século passado, foi criada pelo Congresso Nacional em dezembro de 1904, inicialmente o trecho de São Luís até Caxias (depois foi estendida até a capital piauiense).
A seguir, um pouco de memória e história acerca do fundador e primeiro presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias.
ARTHUR ALMADA LIMA FILHO
----- Fundador e primeiro presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias (IHGC)
Muitos daqueles que passam pela avenida Getúlio Vargas, em Caxias (MA), e veem o grande, restaurado e remodelado prédio e os galpões igualmente imensos, restaurados e remodelados da antiga estação ferroviária não imaginam o quanto de sonho, de visão, de esperança, de burocracia, de esforço e de amor pela terra está misturado a cada mão de tinta, pá de cal, lata de areia, barro e cimento e metros de fiação elétrica e outros materiais utilizados para o restauro daquelas construções e o resgate ou ampliação de considerável fatia do amor-próprio dos caxienses.
Aqueles prédios da antiga Estrada de Ferro São Luís—Teresina (EFSLT), da Rede Ferroviária Federal S. A. (REFFESA) estiveram durante muito tempo ao Deus-dará, antes de Arthur Almada Filho “tomar de conta” deles e ali instalar a sede do IHGC. Antes do Arthur, os prédios desmoronavam -- como sempre, menos pela ação do tempo e mais pela omissão dos homens. Décadas de história estavam ruindo sem ruído, numa fragmentação silenciosa, num desfazimento criminoso de um passado que, embora não tão distante, foi responsável por parte das bases econômico-sociais de que talvez ainda se jactem alguns poucos que vivenciaram aqueles tempos e/ou que deles têm memória.
Arthur Almada Lima Filho passava ali pela Avenida Getúlio Vargas, olhava aquelas edificações e se inquietava – pode-se dizer, até: se indignava. Era o filho ilustre sabendo o quão igualmente ilustre havia ali em termos de historicidade.
Dos contatos iniciais, das correspondências obrigatórias, dos obstáculos e dificuldades que se (o)põem à frente dos que querem fazer a coisa certa neste País, até a autorização para uso e utilização, “sine die”, das portentosas instalações “refesianas”, Arthur Almada Filho teve de munir-se de paciência e persistência, sob pena de suas (boas) intenções irem juntar-se àquelas que assoalham o caminho da Geena.
Foi assim que Caxias e seu Instituto Histórico e Geográfico (IHGC) ganharam adequado espaço para se passar o passado – ou ao menos parte dele – a limpo. O Instituto é o espaço institucional por excelência e de referência para a busca, guarda, zelo e divulgação de itens e fatos, marcas e marcos do passado histórico de Caxias (que o histérico presente ainda não soube respeitar à altura).
Esse espaço, sede do IHGC, recebeu pacientes reformas, restauro, remodelação, melhorias -- as quais são entregues hoje, neste 12 de março de 2025. E pensar que tudo começou com o sadio inconformismo, a consciência, o talento e, em especial, o tempo e o esforço de Arthur Almada Lima Filho -- ele que, em vez de curtir o merecido ócio, após décadas de ofício na Magistratura, na Educação, na Imprensa, ele incumbiu-se e desincumbiu-se nas tarefas de, em igual tempo, presidente do Instituto e encarregado de fazer os contatos, o acompanhamento, as “cobranças”(ou, eufemisticamente, “lembranças”) aos que, pessoas e/ou instituições, aderiram à saudável luta pela adequada recuperação do patrimônio ferroviário e sede do IHGC – o que foi conquistado a troco da persistência e persuasão arturianas.
Um pouco acerca desse grande caxiense, honrado legatário e esforçado transmigrante da estirpe almadiana, é o que se tentou condensar adiante. (EDMILSON SANCHES)
A Estação Ferroviária em Caxias estava abandonada, ruindo. Um caxiense, Arthur Almada Lima Filho, resolveu “comprar briga”. Investiu tempo, talento, paciência, capacidade de luta e de gestão etc. e, em uma primeira fase, recuperou o prédio e o transformou na portentosa e orgulhosa sede do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias, que Arthur fundou e dirigiu.
O passado só ainda está presente e somente terá algum futuro se dele tiverem cuidadores como Arthur Almada Lima Filho.
Lembro-me de que, na época já aos 90 anos, completados em 17 de outubro de 2019, aquele renovado Arthur sentava-se à sua távola quadrada e pequena no remoçado prédio da Estação Ferroviária, cuidava de aspectos da gestão do Instituto e aplicava-se a ler, estudar, pesquisar, escrever, quase sempre sobre fatos históricos de Caxias.
Anatole France, escritor francês (1844–1924), disse que “(...) o passado é o nosso único passeio e o único lugar onde possamos escapar a nossos aborrecimentos diários”, pois “o presente é árido e turvo, o futuro, oculto”. É o caso de Arthur Almada de Lima Filho, que gostava de passear no passado de Caxias, e o fazia sem aborrecimento, pois o passado caxiense era para ele desafio e combustível, mister e mistério de arqueólogo, que se vai descobrindo camada a camada, limpando as contaminações, rearrumando em ordem lógica, até a interpretação e documentação final.
O paulista Eduardo Paulo da Silva Prado, que nem o Arthur, era homem do Direito e escritor; também acadêmico, foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Viveu só 41 anos, tempo bastante para, entre seus amigos, contarem-se, entre outros, portentos literários e intelectuais como Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. Eduardo Prado escreveu: “Certamente o homem deve viver no seu tempo, mas a tendência para a contemplação do passado é um dom nobilíssimo da sua alma”. Mais do que contemplar, Arthur Almada Filho, no caso do passado de Caxias, quis contribuir para organizá-lo, trazê-lo ao presente para garantir-lhe algum futuro. Como constatou o filósofo e poeta francês Paul Valéry (1871-1945): “O passado (...) age sobre o futuro com um poder comparável ao do próprio presente”.
Em geral, Caxias pouco sabe dos esforços e da história, das lutas, lides e lidas desse Arthur filho caxiense que, à maneira de Bilac, “ama com fé e orgulho” a terra em que nasceu. Juiz de Direito, desembargador, vice-presidente e presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão, presidente da nascente universidade estadual maranhense, é citado no prestigioso e internacional “Who’s Who”, seus votos como jurista estão transcritos em obras de Direito, tem seu nome na testada de prédios públicos, seja em fórum seja em escola estado adentro, tais os méritos que a sociedade maranhense quis reconhecer e homenagear. Ex-reitor da UEMA (Universidade Estadual do Maranhão), autor de livros, pesquisador infatigável, magistrado intimorato, honrou o nome e o ofício do pai e o conceito da família – família que, no passado e no presente (e, pelo visto, para o futuro também), legou tanta gente inteligente para Caxias, o Maranhão e o Brasil.
Pelos feitos que fez, certamente não cabe ao Arthur a observação do educador e abolicionista norte-americano Horace Mann (século 19): “Tenha vergonha de morrer até ter obtido alguma vitória para a Humanidade”.
Arthur e eu somos (permita-se o verbo no presente) conterrâneos, confrades e amigos, pertencemos às sadias – e lutadoras – hostes do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias (IHGC), do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM), da Academia Caxiense de Letras (ACL), da Academia Sertaneja de Letras, Educação e Artes do Maranhão (ASLEAMA) e do Rotary Club. E não estamos apenas para estar ou ser, mas para fazer.
Era preciso conviver um pouco com o Arthur para ver-lhe os esforços em nome de coisas e causas coletivas. Era preciso estar perto para sentir-lhe o entusiasmo e satisfação quando da descoberta de um novo nome de caxiense de talento, ou nova informação sobre Caxias, dados que zanzavam por aí, escondidos sob a poeira da História ou encobertos pelo pó do desinteresse humano.
No fim do ano 2013, Caxias e o Maranhão receberam de presente uma obra (“Efemérides Caxienses”, 404 páginas; Ética, 2014) em que Arthur Almada organizou, sistematizou e sintetizou eventos passados, com nomes e datas da História caxiense, mas com pontos de contato com a História maranhense e brasileira. Como dizia e escrevia o Arthur, ausente todo laivo de ufanismo: "Sem a História de Caxias não há História do Brasil". E, com ardor e energias moças, ainda publicou um livro de perfis biográficos (“Perfis”, 238 páginas; Ethos, 2019) e deixou, escrita e organizada -- e por enquanto inédita -- outra obra de fôlego, o "Dicionário Biobibliográfico de Autores e Artistas Caxienses". Sem falar nos diversos livros que se podem organizar com o ror de textos (artigos, ensaios, prefácios etc.) que Arthur deixou inéditos ou espalhados em jornais e revistas, Maranhão adentro e afora...
É esse conterrâneo, caxiense com muito orgulho, que neste 12 de março de 2025 ressurge e (se) reaviva, vívido, no meio de nós, na entrega, restaurado, do Complexo Ferroviário de Caxias.
Parabéns, Arthur Almada Lima Filho, por ter feito valer a pena o dom da Vida recebido e o dom da dedicação com que se entregou à Justiça, ao Direito, à Educação, à Imprensa, à História e à Cultura.
Parabéns, Companheiro Arthur Almada Lima Filho, pela rica Vida que teve, sempre dedicada ao próximo:
--- como Advogado, Promotor, Juiz e Desembargador, fazendo valer o império da Lei e da Justiça para as partes dos processos;
--- como Educador, Professor e Gestor da Educação, levando informação, saber e inspiração para alunos, estudantes e Colegas;
--- como Administrador privado, levando resultados às Pessoas Físicas e Jurídicas, privadas e públicas, que acertadamente confiaram em sua competência;
--- como Pesquisador, Historiador, Escritor, resgatando e levando aos seus Conterrâneos do Maranhão, em especial de Caxias, os registros acerca de pessoas e fatos notáveis de nossa Cidade;
--- como Ser Humano, solidarizando-se com Familiares, Amigos, Colegas, Conhecidos, e disponibilizando-se a auxiliar nas necessidades prementes, nas dificuldades presentes.
Toda a vida do Arthur foi um ato de doação, pois, como é lema de Rotary, ele sabia dar de si antes de pensar em si. E sabia que o maior benefício está no melhor serviço, no saber servir.
Arthur, como Você sabe, os Céus são um lugar de perfeição. Deste modo, lá do Alto mantenha-se torcendo e orando pelo mundo, por sua Cidade, por nós que ainda teimamos em continuar “escapando” neste lado de cá da Vida.
*
Arthur ainda tinha obras a inaugurar, livros a escrever, lugares para visitar, amigos para rever...
Ainda tinha conversas para conversar, “breves graças” para contar, livros para ler, versos para declamar...
Tinha Francês para falar, Latim para citar, Português para bem cuidar, lições para dar...
Tinha o Belo para apreciar, o Tempo para mais aprender, mais o que realizar, mais -- muito mais -- para viver...
Arthur, pelo visto, ainda tinha muito que fazer -- e, se não tivesse, iria procurar...
Companheiro Arthur, como pesquisador e escritor, Você enriqueceu a História.
E, com sua mudança de Vida, é a História que se enriquece com Você.
Aí na Eternidade, Paz e Luz, Amigo.
EDMILSON SANCHES
edmilsonsanches@uol.com.br
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